O mundo está mudando. Mudando não, já mudou. 

GUILHERME ZATTAR, DIRETOR-GERAL DO MULTISHOW, CANAL OFF E BIS

Das ondas do mar da Barra da Tijuca para o frenesi da televisão, Zattar se declara viciado em adrenalina e conta como vem enfrentando o desafio da audiência em TV diante de um mundo cada vez mais digital.

26 de setembro de 2016

O convite para o Multishow veio com a missão de reinventar o canal e colocá-lo entre os 10 primeiros na audiência, objetivos esses que você conquistou. Você se sente realizado?

Não, nunca vou me sentir realizado porque a realização vem com a criação de novos formatos de sucesso e esse trabalho é constante. Então é um desafio enorme. Preciso estar sempre antenado e ter muita saúde e energia porque a televisão é mutante e você não descansa um minuto.

Mas você também se diverte?

Muito, aqui não existe rotina e é uma adrenalina boa. Ontem mesmo passei a tarde com os feras do humor aqui na Globosat. Então, imagina? É reunião, claro que tem um pouco de estresse, mas é uma diversão. Você cria, desenvolve, coloca no ar e de repente está todo mundo falando sobre o programa.

Já que você adora surfar, é possível traçar um paralelo entre a adrenalina de pegar uma onda e de lançar um programa de TV?

Nesse caso, uma adrenalina não te estressa e a outra sim. Lançar um programa é uma tensão enorme, porque a equipe é julgada na hora. Eu vejo televisão com o Twitter na mão e acompanho o que falam. No dia seguinte, eu confiro como foi a audiência e só depois vou relaxar. Já quando vou para o mar, estou na paz completa, ligado à minha essência e à natureza, é um relaxamento total.

“A produtora terceirizada está no mundo, livre, solta

e vai sempre buscar se aprimorar e me vender novas ideias.”

Você terceiriza quase 100% da produção dos programas. Este é um caminho sem volta?

Totalmente. Pra mim, esse é o grande diferencial da Globosat. Se eu contrato alguém e o coloco debaixo da minha asa, eu vou travá-lo, porque ele fica na zona de conforto e a tendência é não evoluir. Agora, uma pessoa de fora está se oxigenando. Ela está no mundo, livre, solta e vai sempre buscar se aprimorar e me vender novas ideias. A qualidade evolui muito dessa forma.

E como lidar com a transformação das mídias e a crescente demanda por interação digital?

O mundo está mudando. Mudando não, já mudou. Hoje, os jovens, entre 12 e 24 anos, têm visto muito pouco televisão linear. É a transição da ditadura da programação pra democracia do on demand. Isso está fazendo a gente parar e pensar. No programa TVZ, já fazemos interação ao vivo via WhatsApp, Snapchat, Instagram, Periscope e foi assim que conseguimos recuperar a audiência. Também criamos um aplicativo – Humor Multishow – só com piadas de um minuto que te fazem gargalhar. Essa é a uma das nossas tentativas de um projeto digital, mas ainda está longe de onde podemos chegar, que vai ser algo muito mais vivo e imediato.

Mas no canal Off você ainda consegue atingir os jovens…

Sim, mas o Off é único no seu segmento. Não existe na internet um concorrente com a qualidade de imagem HD, de áudio e de edição do Off. É um canal com uma proposta muito única.

Não podemos continuar sempre com a mesma onda e com a mesma estrela do surf.”

Sem dúvida, o Off é uma criação inovadora e bem sucedida. Existe a estratégia de ampliar a audiência deste canal?

Existe, mas não a qualquer preço e o fato é que tem dado muito certo como está. Tem fila pra anunciar no canal. O Off vai fazer cinco anos e o Brasil inteiro já o conhece. Ele cresceu por causa de seu conteúdo. É um canal de resguardo, em que a pessoa vai lá pra relaxar e temos desde a garotada com 12 anos até pessoas de 80 assistindo ao canal. O desafio do Off é conteúdo. Temos que buscar coisas novas o tempo todo, porque todo programa tem um prazo de validade. Não podemos continuar sempre com a mesma onda e com a mesma estrela do surf, é preciso surpreender a todo o momento.

Então o seu foco em aumento de audiência é apenas para o Multishow?

Sim, estou me dedicando de verdade em manter o Multishow super competitivo. O Off e o BIS são segmentados: um só de música, o outro só de esportes e lifestyle. Não posso exigir audiência de massa para esses dois canais porque correriam o risco de perderem sua identidade.

“Pra ter altas audiências, qualquer canal no Brasil tem que atingir a classe C.”

Como elevar tanto a audiência na TV por assinatura já que estamos lidando com um público mais qualificado e, portanto, menor?

Não mais. A gente era qualificado no passado, quando eu comecei aqui. Eram três milhões de assinantes, quase todos de classes A, B. Agora continua assim e ainda soma com outros milhões de classes C,D. Hoje, pra ter altas audiências, qualquer canal no Brasil tem que atingir a classe C. São 18,9 milhões de lares, é um grande negócio! Por isso, eu vivo na linha tênue entre a crítica e a audiência.

É por causa dessa audiência de massa que você mantém o Big Brother Brasil e o conteúdo erótico?

Essa é fácil de responder. É que agora não produzimos mais conteúdo erótico nacional e o que acontece é que no mercado internacional as produções não têm disponibilidade de qualidade, então não consideramos mais esse tipo de conteúdo um must have. Por isso, nossa tendência no Multishow é aos poucos substituir a faixa erótica por late night shows.

Mas o Big Brother ainda rende grande audiência.

Sim, ainda é muito relevante para o Multishow. Durante os três meses de exibição, o programa fica sempre entre os top 3.

E como você vê essa questão dos reality shows? Ainda é uma tendência de entretenimento para o jovem?

Sim, vários canais usam este tipo de conteúdo, mas no caso do Multishow todas as tentativas não renderam a alta audiência necessária, com exceção do BBB, claro. Então, neste momento não estou investindo nisso, mas nada impede que no futuro eu tenha uma ideia interessante de reality.

Para finalizar, conte um pouco sobre sua experiência em uma das maiores gravadoras do Brasil, a BMG. Música também é sua praia?

Total. Os anos em que vivi no ambiente da música foram sensacionais. Meu trabalho era buscar novos talentos, então assisti a shows que um ser humano normal não vê. Vi Alicia Keys, Santana… Trouxe Maroon 5 para o Brasil pela primeira vez e ninguém quis fazer nada com eles! Armei junto com a Rádio Cidade um pocket show exclusivo para os ouvintes e enchemos apenas metade da casa. Nós morremos de vergonha, olha que coisa! Mas meu feeling musical não é tão forte, acho que minha intuição é mais voltada para o lado de televisão popular. Estou aprendendo muito, mas acabei percebendo que tenho um bom faro pra isso.